Cinema e Série

Anora é uma Linda Mulher às avessas

Filme vencedor da Palma de Ouro de Cannes chega aos cinemas dia 23 de janeiro

Anora Filme Sean Baker

A narrativa do “príncipe encantado” como a solução mágica para mudar de vida é inculcada nas mulheres desde a infância. Desde os clássicos da Disney até comédias românticas contemporâneas, essa ideia é apresentada como uma possibilidade natural e acessível, transformando-se, muitas vezes, em um objetivo inconsciente para a vida adulta.

“Anora” subverte essa expectativa ao contar a história de uma dançarina que, iludida por um mundo de luxo, sucumbe ao desejo de uma vida diferente após conhecer o mimado filho de um oligarca russo. A opulência da vida dele contrasta com a realidade dura de Anora, inebriando-a e levando-a a acreditar em uma transformação impossível. O ponto culminante ocorre quando o jovem, em um gesto impulsivo, a pede em casamento. Mas a história de Anora não é um conto de fadas à la Uma Linda Mulher.

Diferentemente da visão romantizada apresentada pelo clássico dos anos 90, que transforma a prostituta Vivian em uma Cinderela moderna, “Anora” recusa a ilusão. O roteiro original de Uma Linda Mulher, intitulado 3.000, terminaria com a protagonista sendo brutalmente rejeitada, expondo a crueldade de sua realidade. A intervenção da Disney, no entanto, transformou a narrativa em um sonho açucarado que, mais uma vez, perpetuou uma fantasia para mulheres vulneráveis.

Sean Baker, por outro lado, opta por enfrentar a realidade com um olhar cru e empático. Seu cinema dá voz às histórias marginalizadas, explorando com profundidade temas como pobreza, prostituição e desigualdade. Com uma abordagem quase documental e uma cinematografia vibrante, ele equilibra momentos de humor e drama, transformando o cotidiano em uma dramédia sincera e emocionalmente rica.

Anora Filme Sean Baker
Anora Filme Sean Baker

Em “Anora”, há ecos do conto de Cinderela, mas com um desfecho brutalmente honesto: a carruagem vira abóbora, e não há resgate. O príncipe encantado se revela uma miragem, e Anora retorna ao vazio de sua vida, agora com a amarga compreensão da fragilidade de suas esperanças.

A sexualidade, no entanto, emerge como sua maior força e também sua vulnerabilidade. É o eixo de sua autoconfiança, mas também um lembrete de sua posição precária em um mundo que explora essas expressões de poder. Esse equilíbrio entre fragilidade e força torna Anora uma personagem profundamente humana, capaz de desafiar as expectativas do espectador.

O filme remete, ainda, ao brasileiro Falsa Loura, que também explora a complexidade da feminilidade como um espaço de poder ambíguo, capaz de libertar e aprisionar. Ambas as histórias mostram mulheres tentando navegar por contextos sociais opressores, expondo as contradições entre a emancipação e a exploração.

“Anora” não oferece soluções fáceis ou finais reconfortantes. Em vez disso, deixa o espectador com uma reflexão incômoda sobre os sonhos fabricados e as narrativas que nos são vendidas como salvação. A história de Anora é, em última instância, um convite para questionarmos a construção desses ideais e o preço que se paga por acreditar neles. Ao rejeitar o final feliz convencional, o filme nos lembra que nem todas as histórias são contos de fadas, mas todas carregam verdades que merecem ser contadas.